o nytimes diz-nos quais são os melhores de 2015, e eu aguardo a tradução deste com comedida ansiedade.
(il. Emiliano Ponzi)
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| Mariana, a miserável |

"Procurar os gestos calmos, sem ciladas nem excessivos rodeios, voltar aos gestos que nos simplificam e tornam seres naturais, esses que não se bifurcam, mas encavalitam expressivamente, por um gosto mais do que residual. Pousar as ideias junto à voz, palavras como pedras quando se fazem vento, correntes arrastando aromas, sensações mais do que ansiedades: mais do que a vontade, a firmeza limpa de reconhecer em tudo um fim em si mesmo. Toda a previsão se arruma num desgosto. Ter verdadeira visão, no sentido visionário, é menos um talento que apalpa o futuro do que ficar contente por esquecer o tempo, alargar um gesto no espaço, rolar o dado desinteressadamente e dar os passos em volta de si como de nada, furtivamente, como animais de um género indiscernível. É uma ficção que amesquinha, o tempo: fazer dele a medida à cabeça de tudo, envergonha os ombros que nos suportam. O tempo cobra-se juros, vive de uma matemática avarenta, um ritmo em desprezo pela melodia; persuasão sem graça nem eloquência. O espaço e a razão das suas distâncias conserva sempre mais nobreza. As paisagens permanecem, desdobram-se, fluem lentamente, quase imóveis, entretendo-se delicadamente com o movimento que lhes damos nós. Percorrem-nos tolerantemente, não dizem muito, mas prosseguem, disponíveis sempre. A sua atenção generosa, a magnífica reciprocidade de se deixarem olhar por quem olha e não perde tempo com o que não está lá. O inferno é uma colecção de ausências, de lugares condenados ao peso do que não se deixa ver, tocar ou sentir. O inferno é elencar as coisas que faltam, dizer que falta alguém, que faltas tu: falta que te completem ou destruam... Há uma razão para que se ajoelhem quando rezam. Esse gesto prostrado através do qual um corpo presta culto ao espaço que tem em volta. E é tocante o modo sincero como Deus se cala e não tem nunca nada mais a acrescentar."
My dear little girl
For a long time I’ve been wanting to write to you in the evening after one of those outings with friends that I will soon be describing in “A Defeat,” the kind when the world is ours. I wanted to bring you my conqueror’s joy and lay it at your feet, as they did in the Age of the Sun King. And then, tired out by all the shouting, I always simply went to bed. Today I’m doing it to feel the pleasure you don’t yet know, of turning abruptly from friendship to love, from strength to tenderness. Tonight I love you in a way that you have not known in me: I am neither worn down by travels nor wrapped up in the desire for your presence. I am mastering my love for you and turning it inwards as a constituent element of myself. This happens much more often than I admit to you, but seldom when I’m writing to you. Try to understand me: I love you while paying attention to external things. At Toulouse I simply loved you. Tonight I love you on a spring evening. I love you with the window open. You are mine, and things are mine, and my love alters the things around me and the things around me alter my love.
My dear little girl, as I’ve told you, what you’re lacking is friendship. But now is the time for more practical advice. Couldn’t you find a woman friend? How can Toulouse fail to contain one intelligent young woman worthy of you*? But you wouldn’t have to love her. Alas, you’re always ready to give your love, it’s the easiest thing to get from you. I’m not talking about your love for me, which is well beyond that, but you are lavish with little secondary loves, like that night in Thiviers when you loved that peasant walking downhill in the dark, whistling away, who turned out to be me. Get to know the feeling, free of tenderness, that comes from being two. It’s hard, because all friendship, even between two red-blooded men, has its moments of love. I have only to console my grieving friend to love him; it’s a feeling easily weakened and distorted. But you’re capable of it, and you must experience it. And so, despite your fleeting misanthropy, have you imagined what a lovely adventure it would be to search Toulouse for a woman who would be worthy of you and whom you wouldn’t be in love with? Don’t bother with the physical side or the social situation. And search honestly. And if you find nothing, turn Henri Pons, whom you scarcely love anymore, into a friend.
[…]
I love you with all my heart and soul.
A palavra mais forte, mais verdadeira, que toca no seu próprio fim, na sua matéria mais densa e profunda, pode não ser a palavra dita “literária” (muito embora, paradoxalmente, consiga fazer-nos acreditar na existência da literatura), não ter a assinatura de um escritor, nem realizar o esforço de se apresentar sob a forma de poema, de romance, de texto em prosa, de livro. Aliás, os livros, cujo regime de apresentação na cena da literatura é, em geral, o da idade do narcisismo, da regressão a uma infantilidade que leva as pessoas a quererem “exprimir-se” e a introduzir o odioso “eu” por todas as frestas e em todos os salões de festa a que acedem (a estupidez, diz algures Deleuze, nunca é muda nem cega), raramente têm um lugar diferencial, uma função de negatividade, no meio do ruído. Palavras fortes, capazes de nos fazer perceber que fomos expropriados sem remorso e estamos imersos na pobreza das palavras que escondem a nossa jornada, são as que podemos ouvir em Vidros Partidos, o filme com que Víctor Erice respondeu a uma encomenda de “Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura”. Nesse filme/documentário, ouvimos o testemunho de homens e mulheres que trabalharam numa fábrica de tecidos do Rio Vizela, na região do Vale do Ave, fundada em 1845 e encerrada em 2002. Eles contam a sua experiência na fábrica e comentam uma foto antiga, que parece ter sido feita numa ocasião festiva, onde aparecem, reunidos, ao longo de mesas de cantina, os operários de então. A foto é inquietante, pelo modo como todos aqueles homens e mulheres, sujeitos de uma história que chegou há muito ao seu fim e que nós já só conhecemos da historiografia, olham para nós e nos interpelam. Víctor Erice pôs alguns ex-trabalhadores da fábrica encerrada a recitar, de cor, diante da câmara, o texto com que prestaram o seu testemunho. Isto é: a versão inicial do texto foi arranjada, montada, cortada (mas não reescrita com outras palavras), e depois dita pelos seus autores, que passaram assim a ser também actores da sua própria história. Uma mulher, velha e debilitada, aproveita a ocasião para ler um poema que leva consigo, de uma prima que “escrevia muito bem, desde muito nova”. E esse poema, que não interrompe nada e apenas prolonga o fluxo das palavras daquela mulher como um fluxo poético (como aliás, o de todos os outros ex-trabalhadores da fábrica que testemunham no filme de Erice), soa-nos como algo capaz de dar a ver a vacuidade da literatura e os seus abjectos artifícios – aquela que chega até nós mediada pelos protocolos canónicos da instituição literária. Tal poema é um antídoto contra a saturação intrínseca à indústria literária, essa coisa ignóbil que dissimula a nossa própria morte. O que as palavras daquela mulher nos fazem perceber (assim como a de todos os outros trabalhadores que comparecem no filme, sem poemas para ler, mas com palavras próprias para dizer), muito especialmente quando recita o poema da sua prima, é que nós chegámos demasiado tarde à literatura, quando ela já chegou ao seu fim. Nós, leitores, vós, escritores, jamais conseguiremos atingir, perante a palavra literária, aquele estado de encantamento, que não se confunde com nenhuma espécie de ingenuidade. Para aquela trabalhadora, a tragédia da história redime-se através de um poema que nunca tinha encontrado o seu público; para nós, tudo o resto é literatura. Aquele poema resplandece sem assinatura; nós, só raramente conhecemos um escritor que não seja ao mesmo tempo jornalista, escritor-jornalista com uma missão de reportagem de si próprio e da sua obra.
- António Guerreiro
in Ípsilon (16.05.2014)