sexta-feira, 22 de abril de 2016

o riso que me prolonga




                      
O ladrão de versos
Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.
Rui Knopfli
(parabéns, J.)

domingo, 20 de março de 2016

equinócio





Une minute de printemps
dure souvent plus longtemps
qu'une heure de décembre
une semaine d'octobre
une année de juillet(...)
Jacques Prévert



domingo, 14 de fevereiro de 2016

um sopro do coração
















                                                               








quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

a novela napolitana


 

o nytimes diz-nos quais são os melhores de 2015, e eu aguardo a tradução deste com comedida ansiedade.

(il. Emiliano Ponzi)


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

a ver estrelas




Mariana, a miserável

A propósito de estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes
Quem Quer Casar Com a Poetisa?
Quasi Edições, 2001



terça-feira, 15 de setembro de 2015

blessing all your birthdays























continuas a ensinar-me as cores com que podem enfeitar-se as ervas
e a distribuir pirilampos pelas árvores
para que a noite não me assuste.
habitas os meus caminhos.


(parabéns, cn)





quinta-feira, 20 de agosto de 2015

trago-a comigo












Excerto
A mãe corta retalhos da paisagem
e cose-os uns aos outros, sendo que há
por ali um critério indecifrável
e não sabemos bem para o que olhamos.
Pois aquilo que corre está imóvel,
por exemplo, a água que essa mãe
com um gesto deteve e que, parecendo
cair, não cai.
Tornado vidro
o leito daquele rio,
como por acção de uma temperatura,
um vidro doce, ainda iluminado
pelo verão que entrou nele,
um vidro azul, malhado pelo frio
que o quis atravessar
e fracassou.

Hélia Correia, do poema “Mãe Cargaleiro (I)”

quarta-feira, 1 de julho de 2015

truz-truz


Margarida Mestre e António-Pedro criaram a música para acompanhar poemas próprios e de António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Luísa Ducla Soares, Sidónio Muralha e do cancioneiro popular.
as ilustrações são de Marta Madureira, em mais um título das "palavras que alimentam".










sábado, 28 de março de 2015

Tomas Tranströmer











Abril e o silêncio


A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.
O que apenas quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.

terça-feira, 24 de março de 2015

correu pelo orvalho dentro







Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressureição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.
       Herberto Helder, A Faca Não Corta O Fogo



domingo, 21 de dezembro de 2014

a literatura e a vida



img. Adam McCauley

Leitura selvagem

Protagonista dos livros policiais do escritor Luis Alfredo Garcia-Roza, o detective Espinosa tem o hábito de, ao fim do dia, no regresso a casa, parar nos alfarrabistas do seu bairro para comprar livros a preços convidativos — livros que depois, quando o tempo o permite, coloca em filas organizadas, alternando-os ora na vertical, ora na horizontal, assim dispensando as prateleiras na sua biblioteca. Mas mais contagiante é o seu processo de leitura, cuja heterodoxia vai revelando em detalhe a cada livro. 
Como método de leitura, Espinosa tem o “não ter método”, ou seja, lê conforme a sua disposição mental e física, critério ao qual acrescenta uma decisão de roleta na escolha do livro: “Espinosa tinha escolhido um livro para ler naquela noite, e a ele já acrescentara mais dois. Não que pretendesse ler três livros numa só noite mas por pura incerteza; não também por não ser capaz de descobrir por que o professor Vicente (protagonista da novela Um lugar perigoso) estava seguindo (...). Como não teria resposta para essa pergunta naquela noite, escolheu, de entre os três livros, A Trégua, de Primo Levi. Não conseguiu dormir antes das três da madrugada.”
Admitamos que esta relação rebelde com os livros e com a leitura, motivada pelo prazer e desconsiderando totalmente os fundamentalismos da narratologia, não é inédita. Na verdade, Espinosa aqui pouco se distinguiria, por exemplo, de Montaigne, que só raras vezes lia um livro de enfiada. A maioria das vezes, como ele próprio afirma, folheia “ora um livro ora um outro, um pedaço aqui, outro acolá, sem ordem nem plano de leitura”: “Ora divago, ora anoto e dito, enquanto ando de um lado para o outro, os devaneios que eis aqui” (Ensaios, Livro III). 
É sabido que os modos de leitura — as técnicas — muito se têm alterado ao longo da história da leitura; nem sempre se leu em silêncio, por exemplo. A este modo de ler (do detective Espinosa e de Montaigne) chama o já referido escritor e reputado psicanalista Luis Alfredo Garcia-Roza “uma leitura selvagem”, leitura que ele próprio considera ser a sua e que transmitiu ao protagonista das suas novelas: “Eu misturo a leitura de um Proust com a de uma Patricia Highsmith (..). Eu não leio literatura criticamente, eu tenho uma leitura pré-crítica, como o afirmava Lévi Strauss”, diz ele numa entrevista ao programa Um escritor na biblioteca.
Interessa aqui o reconhecimento de que há outras possibilidades de relação com os livros, algumas delas condicionadas pelos novos suportes electrónicos — que combinam acessibilidades múltiplas a vários textos em simultâneo mas, principalmente, outros modos de leitura, que não têm de ser penalizados por não serem conformes a processos condicionados pela semiótica, pela narratologia e, em último caso, pelo que ainda subjaz do lado mais rígido do estruturalismo e da morte do autor. 
A este propósito, a publicação recente de Façons de lire, manières d’être, de Marielle Macé, vem, entre outras propostas, repensar o acto de ler, afirmar que a literatura não está necessariamente separada da vida, que o modo de ler define um estilo, e que a leitura, ao invés de ser pensada como um acto de subjugação do texto ao leitor, é uma relação de atracção e réplica.
A autora começa por afirmar que não há “de um lado a literatura e do outro lado a vida”; que é, aliás, na vida vulgar que as obras de arte exercem a sua força. Não fala em recepção, decifração imediata, tão pouco fala na descodificação da obra. Ao usar uma terminologia como “força”, “energia”, “atracção”, “circulação de imagens” entre as obras e os sujeitos — curiosamente, uma terminologia muito nietzschiana —, Macé aborda a leitura como possibilidade de dar à vida forma, “sabor” e, até, “estilo”. 
Assim, podemos dizer “este livro agrada-me” sem corrermos o risco de sermos leitores menos considerados. No entanto, não há aqui — e bastará averiguar o conhecimento que a autora tem da literatura europeia e a bibliografia a que recorre — nenhuma simplificação do acto da leitura. A grande crítica de Marielle Macé recai sobre a forma como a semiótica e a narratologia criaram modelos de leitura como operações fechadas, recusando uma continuidade ou uma ligação entre a literatura e a vida. 

António Pinto Ribeiro

in http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/leitura-selvagem-1679588

Façons de lire, manières d’être, de Marielle Macé
 
img. daqui

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

the coming of love








The Coming of Light

Even this late it happens:
the coming of love, the coming of light.
You wake and the candles are lit as if by themselves,
stars gather, dreams pour into your pillows,
sending up warm bouquets of air.
Even this late the bones of the body shine
and tomorrow's dust flares into breath.

Mark Strand 
(11 de abril de 1934 - 29 de novembro de 2014)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

lustro do dia: o melhor amigo





"Procurar os gestos calmos, sem ciladas nem excessivos rodeios, voltar aos gestos que nos simplificam e tornam seres naturais, esses que não se bifurcam, mas encavalitam expressivamente, por um gosto mais do que residual. Pousar as ideias junto à voz, palavras como pedras quando se fazem vento, correntes arrastando aromas, sensações mais do que ansiedades: mais do que a vontade, a firmeza limpa de reconhecer em tudo um fim em si mesmo. Toda a previsão se arruma num desgosto. Ter verdadeira visão, no sentido visionário, é menos um talento que apalpa o futuro do que ficar contente por esquecer o tempo, alargar um gesto no espaço, rolar o dado desinteressadamente e dar os passos em volta de si como de nada, furtivamente, como animais de um género indiscernível. É uma ficção que amesquinha, o tempo: fazer dele a medida à cabeça de tudo, envergonha os ombros que nos suportam. O tempo cobra-se juros, vive de uma matemática avarenta, um ritmo em desprezo pela melodia; persuasão sem graça nem eloquência. O espaço e a razão das suas distâncias conserva sempre mais nobreza. As paisagens permanecem, desdobram-se, fluem lentamente, quase imóveis, entretendo-se delicadamente com o movimento que lhes damos nós. Percorrem-nos tolerantemente, não dizem muito, mas prosseguem, disponíveis sempre. A sua atenção generosa, a magnífica reciprocidade de se deixarem olhar por quem olha e não perde tempo com o que não está lá. O inferno é uma colecção de ausências, de lugares condenados ao peso do que não se deixa ver, tocar ou sentir. O inferno é elencar as coisas que faltam, dizer que falta alguém, que faltas tu: falta que te completem ou destruam... Há uma razão para que se ajoelhem quando rezam. Esse gesto prostrado através do qual um corpo presta culto ao espaço que tem em volta. E é tocante o modo sincero como Deus se cala e não tem nunca nada mais a acrescentar."



domingo, 6 de julho de 2014

the man with the beautiful eyes







the man with the beautiful eyes
 charles bukowski


when we were kids
there was a strange house
all the shades were
always
drawn
and we never heard voices
in there
and the yard was full of
bamboo
and we liked to play in
the bamboo
pretend we were
Tarzan
(although there was no
Jane).
and there was a
fish pond
a large one
full of the
fattest goldfish
you ever saw
and they were
tame.
they came to the
surface of the water
and took pieces of
bread
from our hands.
Our parents had
told us:
“never go near that
house.”
so, of course,
we went.
we wondered if anybody
liveed there.
weeks went by and we
never saw
anybody.
then one day
we heard
a voice
from the house
“YOU GOD DAMNED
WHORE!”
it was a man’s
voice.
then the screen
door
of the house was
flung open
and the man
walked
out.
he was holding a
fifth of whiskey
in his right
hand.
he was about
30.
he had a cigar
in his
mouth,
needed a shave.
his hair was
wild and
and uncombed
and he was
barefoot
in undershirt
and pants.
but his eyes
were
bright.
they blazed
with
brightness
and he said,
“hey, little
gentlemen,
having a good
time, I
hope?”
then he gave a
little laugh
and walked
back into the
house.
we left,
went back to my
parents’ yard
and thought
about it.
our parents,
we decided,
had wanted us
to stay away
from there
because they
never wanted us
to see a man
like
that,
a strong natural
man
with
beautiful
eyes.
our parents
were ashamed
that they were
not
like that
man,
that’s why they
wanted us
to stay
away.
but
we went back
to that house
and the bamboo
and the tame
goldfish.
we went back
many times
for many weeks
but we never
saw
or heard
the man
again.
the shades were
down
as always
and it was
quiet.
then one day
as we came back from
school
we saw the
house.
it had burned
down,
there was nothing
left,
just a smouldering
twisted black
foundation
and we went to
the fish pond
and there was
no water
in it
and the fat
orange goldfish
were dead
there,
drying out.
we went back to
my parents’ yard
and talked about
it
and decided that
our parents had
burned their
house down,
had killed
them
had killed the
goldfish
because it was
all too
beautiful,
even the bamboo
forest had
burned.
they had been
afraid of
the man with the
beautiful
eyes.
and
we were afraid
then
that
all throughout our lives
things like that
would
happen,
that nobody
wanted
anybody
to be
strong and
beautiful
like that,
that
others would never
allow it,
and that
many people
would have to
die.

sábado, 21 de junho de 2014

I love you with the window open




My dear little girl

For a long time I’ve been wanting to write to you in the evening after one of those outings with friends that I will soon be describing in “A Defeat,” the kind when the world is ours. I wanted to bring you my conqueror’s joy and lay it at your feet, as they did in the Age of the Sun King. And then, tired out by all the shouting, I always simply went to bed. Today I’m doing it to feel the pleasure you don’t yet know, of turning abruptly from friendship to love, from strength to tenderness. Tonight I love you in a way that you have not known in me: I am neither worn down by travels nor wrapped up in the desire for your presence. I am mastering my love for you and turning it inwards as a constituent element of myself. This happens much more often than I admit to you, but seldom when I’m writing to you. Try to understand me: I love you while paying attention to external things. At Toulouse I simply loved you. Tonight I love you on a spring evening. I love you with the window open. You are mine, and things are mine, and my love alters the things around me and the things around me alter my love.

My dear little girl, as I’ve told you, what you’re lacking is friendship. But now is the time for more practical advice. Couldn’t you find a woman friend? How can Toulouse fail to contain one intelligent young woman worthy of you*? But you wouldn’t have to love her. Alas, you’re always ready to give your love, it’s the easiest thing to get from you. I’m not talking about your love for me, which is well beyond that, but you are lavish with little secondary loves, like that night in Thiviers when you loved that peasant walking downhill in the dark, whistling away, who turned out to be me. Get to know the feeling, free of tenderness, that comes from being two. It’s hard, because all friendship, even between two red-blooded men, has its moments of love. I have only to console my grieving friend to love him; it’s a feeling easily weakened and distorted. But you’re capable of it, and you must experience it. And so, despite your fleeting misanthropy, have you imagined what a lovely adventure it would be to search Toulouse for a woman who would be worthy of you and whom you wouldn’t be in love with? Don’t bother with the physical side or the social situation. And search honestly. And if you find nothing, turn Henri Pons, whom you scarcely love anymore, into a friend.

[…]

I love you with all my heart and soul.


via

sexta-feira, 23 de maio de 2014

a vida e assim






EL SÍMBOLO DE TODA NUESTRA VIDA

Hay noches que debieran ser la vida.
Intensas largas noches irreales
con el sabor amargo de lo efímero
y el sabor venenoso del pecado
- como si fuésemos más jovenes
y aún nos fuese dado malgastar
virtud, dinero y tiempo impunemente.

Debieran ser la vida,
el símbolo de toda nuestra vida,
la memoria dorada de la juventud.
Y, como el despertar repentino de una vieja pasión,
que volviesen de nuevo aquella noches
para herirnos de envídia
de todo cuanto fuimos y vivimos
y aún a veces nos tienta
con su procacidad.
Porque debieron ser la vida.

Y lo fueron tal vez, ya que el recuerdo
las salva y les concede el privilegio de fundirse
en una sola noche triunfal,
inovidable, en la que el mundo
pareciera haber puesto
sus llamativas galas tentadoras
a los pies de nuestra altiva adolescencia.

Larga noche gentil, noche de nieve,
que la memoria te conserve como una gema cálida,
con brillo de bengalas de verbena,
en el cielo apagado en que flotan
los ángeles muertos, los deseos adolescentes.

Felipe Benítez Reyes
via