quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"da imensa ausência"

















Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
Al Berto                                                                                                             
                                 (faria hoje 69 anos)


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016



Poema inútil com montanha

Vejo a montanha à minha frente pousada
Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade
De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto,
Quando um pensamento inútil me sugere
Que a montanha pode ser
Um pormenor pensado por ela
Na paisagem do meu próprio pensamento, para
Com isto me levar a pensar sobre pensamentos,
E não sobre montanhas, ficando ela, como antes,
Pousada na água sempre verde, sem ser
Pensada por ninguém.

Rui Costain A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Edições Quasi)


 



terça-feira, 22 de novembro de 2016

domingo, 28 de agosto de 2016

caderno de campo





Katie Daisy 
 How to be a Wildflower
Chronicle Books


Raízes e asas. Mas que as asas enraízem
e as raízes voem.

Juan Ramón Jimenez

sexta-feira, 22 de abril de 2016

o riso que me prolonga




                      
O ladrão de versos
Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.
Rui Knopfli
(parabéns, J.)

domingo, 20 de março de 2016

equinócio





Une minute de printemps
dure souvent plus longtemps
qu'une heure de décembre
une semaine d'octobre
une année de juillet(...)
Jacques Prévert



domingo, 14 de fevereiro de 2016

um sopro do coração
















                                                               








quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

a novela napolitana


 

o nytimes diz-nos quais são os melhores de 2015, e eu aguardo a tradução deste com comedida ansiedade.

(il. Emiliano Ponzi)


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

a ver estrelas




Mariana, a miserável

A propósito de estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes
Quem Quer Casar Com a Poetisa?
Quasi Edições, 2001



terça-feira, 15 de setembro de 2015

blessing all your birthdays























continuas a ensinar-me as cores com que podem enfeitar-se as ervas
e a distribuir pirilampos pelas árvores
para que a noite não me assuste.
habitas os meus caminhos.


(parabéns, cn)





quinta-feira, 20 de agosto de 2015

trago-a comigo












Excerto
A mãe corta retalhos da paisagem
e cose-os uns aos outros, sendo que há
por ali um critério indecifrável
e não sabemos bem para o que olhamos.
Pois aquilo que corre está imóvel,
por exemplo, a água que essa mãe
com um gesto deteve e que, parecendo
cair, não cai.
Tornado vidro
o leito daquele rio,
como por acção de uma temperatura,
um vidro doce, ainda iluminado
pelo verão que entrou nele,
um vidro azul, malhado pelo frio
que o quis atravessar
e fracassou.

Hélia Correia, do poema “Mãe Cargaleiro (I)”

quarta-feira, 1 de julho de 2015

truz-truz


Margarida Mestre e António-Pedro criaram a música para acompanhar poemas próprios e de António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Luísa Ducla Soares, Sidónio Muralha e do cancioneiro popular.
as ilustrações são de Marta Madureira, em mais um título das "palavras que alimentam".










sábado, 28 de março de 2015

Tomas Tranströmer











Abril e o silêncio


A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.
O que apenas quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.

terça-feira, 24 de março de 2015

correu pelo orvalho dentro







Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressureição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.
       Herberto Helder, A Faca Não Corta O Fogo