domingo, 8 de Novembro de 2009

impossibilidades


Coisas que não há que há

Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num sítio onde só eu ia...

Manuel António Pina

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

estado puro



há já uns tempos que queria mostrar por aqui um recanto do trabalho da ilustradora Beatriz Martin Vidal, a série Birdchildren. o traço, a leveza da cor e a quietude destas crianças revelam caminhos de liberdade.






tal qual o sonho valente destoutro menino:

O Poeta Aprendiz

Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante
Anos tinha dez
E asas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc
O olhar verde gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho
Em bola de meia
Jogando de meia-direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar

Vinicius de Morais

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

vivant!


img. daqui

"O Mundo começou sem o homem e acabará sem ele. As instituições, os costumes e os hábitos que eu teria passado a vida a inventariar e a compreender são uma eflorescência passageira de uma criação em relação à qual não possuem qualquer sentido senão talvez o de permitir à humanidade desempenhar o seu papel. Longe de ser este papel a marcar-lhe um lugar independente e de ser o esforço do homem – mesmo condenado – a opor-se em vão a uma degradação universal, ele próprio aparece como uma máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando no sentido da desagregação de uma ordem original e precipitando uma matéria poderosamente organizada na direcção de uma inércia sempre maior e que será um dia definitiva. Desde que ele começou a respirar e a alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo – e excepto quando se reproduz -, o homem não fez mais do que dissociar alegremente biliões de estruturas para reduzi-las a um estado em que elas já não são susceptíveis de integração. Sem dúvida, ele construiu cidades e cultivou campos; mas, quando pensamos neles, estes objectos são, eles próprios, máquinas destinadas a produzirem inércia a um ritmo e numa proporção infinitamente mais elevada que a quantidade de organização que implicam. Quanto às criações do espírito humano, o seu sentido não existe senão em relação a ele, e elas confundir-se-ão com a desordem quando ele tiver desaparecido.
"

Tristes Trópicos
Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
via

domingo, 1 de Novembro de 2009

para uma imensa minoria



o dia é triste e cinzento

(img. daqui)

receita para dias cinzentos









o lugar da ilustradora valenciana Aitana Carrasco

(entrevista aqui)

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

50 anos, por tutatis!




os primeiros li-os em francês e mais tarde segui em frente, trespassando cada um que aparecia. Astérix era o verdadeiro herói. o substituto de um Viriato beirão, apagado numa história pouco entusiasmante.
para mergulhar no lustro oficial é por aqui

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

à beira rio

Páre, escute e olhe o documentário de Jorge Pelicano, vencedor de três prémios no Doclisboa 2009.





terça-feira, 27 de Outubro de 2009

city fun

gostava que nas cidades, algumas coisas pudessem ser assim tão simples .
(clicar nas imagens)





projecto The Fun Theory (via cn)

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

lustro do dia













resistentes e orgulhosas, as cidades visíveis de Amy Casey. foi por elas que nos últimos dias revisitei Marco Polo.
(img. daqui e daqui)

domingo, 25 de Outubro de 2009

o outro lado do espelho


img.
Colleen Corradi Brannigan


"Os antigos construíram Valdrada à beira de um lago com casas todas varandadas umas por cima das outras e com ruas altas que fazem assomar à água os parapeitos em balaustrada. Assim o viajante ao chegar vê duas cidades: uma direita sobre o lago e uma reflectida de pernas para o ar . Nada existe nem acontece coisa numa cidade que a outra não repita, porque a cidade foi construída de modo que todos os seus pontos fossem reflectidos pelo seu espelho, e a cidade na água contém não só todas as estrias e os remates das fachadas que se elevam por cima do lago, mas também o interior das casas com os tectos e pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários. Os habitantes sabem que todos os seus actos são ao mesmo tempo esse acto e a sua imagem especular, a que pertence a especial dignidade das imagens, e esta sua consciência proíbe-os de se abandonarem por um só instante ao acaso e ao esquecimento.
O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho, consegue resistir quando espelhado. As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que existe ou acontece na cidade é simétrico: a cada rosto e a cada gesto respondem do espelho um rosto ou um gesto inverso ponto por ponto. As duas cidades vivem uma para a outra, olhando-se continuamente nos olhos."


As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Teorema


sábado, 24 de Outubro de 2009

imaterialidade



"Kubla
i pergunta a Marco, – Quando tornares ao Poente, repetirás à tua gente as mesmas histórias que me contas a mim?
– Eu falo falo – diz Marco – mas quem me ouve só fixa as pérolas que deseja. Outra é a descrição do mundo a que dás benignos ouvidos, outra a que correrá os grupos dos estivadores e gondoleiros nos canais da minha cidade no dia do meu regresso, e outra ainda a que poderei ditar em tardia idade, se fosse feito prisioneiro pelos piratas genoveses e posto a ferros na mesma cela com um escrivão de romances de aventuras. Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido."



img. Nora Sturges


"Embora situada em terreno seco, surge sobre altíssimas palafitas, e as casas são de bambu e de zinco, com muitos poleiros e varandas, postas a diferente altura, em andas que se sobrepõem umas às outras, ligadas por escadas de madeira e passeios suspensas..."(Zenobia)


As Cidades Invisíveis, Italo Calvino


sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

obstinação



«Para guardar os livros, Cosimo ia construindo uma espécie de biblioteca suspensa, o mais possível resguardada da chuva e dos roedores. Mas mudava constantemente os livros de lugar, segundo os estudos e gostos do momento, porque ele considerava os livros um pouco como se fossem aves e não queria, assim, vê-los fechados ou engaiolados, afirmando que semelhante espectáculo só servia para o entristecer (…).

E se, nos últimos tempos, à força de passar a vida metido entre os livros, andava um pouco com a cabeça entre as nuvens, cada vez menos interessado pelo mundo que o rodeava, agora, em vez disso, a leitura da Enciclopédia e certas palavras lindíssimas como: Abeille, Arbre, Bois, Jardin, faziam-no descobrir em todas as coisas que o cercavam aspectos totalmente novos»


«Entre os livros que mandava vir começavam a figurar até alguns tratados práticos, por exemplo tratados práticos de arboricultura (…). Aprendeu, assim, a arte de podar as árvores e oferecia os seus préstimos aos cultivadores de pomares (…). Em resumo, o amor que sentia por aquele seu elemento arbóreo soube torná-lo, como sempre acontece com todo o verdadeiro amor, até um pouco desapiedado e doloroso, um amor que fere e corta cerce, mas com a nobre intenção de fazer crescer e dar forma às árvores.»

O Barão Trepador, Italo Calvino, Teorema

( as ilustrações são de Yan Nascimbene para Le baron perché, Editions du Seuil, 2005)

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

another rainy day


terça-feira, 20 de Outubro de 2009

os dias assim,











ficam belos no lugar poético de Veronika Chavez

domingo, 18 de Outubro de 2009

brilho de ontem



Luanda, A Fábrica da música

Director: Kiluanje Liberdade/ Inês Gonçalves

HOJE
(ainda) às 19h na Culturgest, doclisboa

"No musseque Coca-cola, um bairro de lata na perifieria de Luanda, vivem os miúdos poetas. Podemos vê-los a lavar carros, a vender chicletes, a engraxar sapatos. O que não veríamos sem este filme era o seu sonho, o dia da gravação com o Dj Buda.

Os miúdos trabalhadores juntam 1000 Kwanzas (1 coca-cola=60 kwanzas) e fazem fila à porta do estúdio do Dj Buda, que é o seu quarto na sua casa, no musseque.

Dj Buda, 21 anos. Há 10 anos era um miúdo desenrascado do Coca-cola. Descendente de uma dinastia de irmãos informatizados que encontraram no computador o seu modo de vida, Buda herdou a máquina com que grava a voz dos miúdos cantores. Nunca se viu nada assim. Os miúdos gritam os seus poemas para o velho microfone estilo Frank Sinatra, de headphones enfiados na cabeça de onde ouvem os ritmos electrónicos e electrizantes que Dj Buda compôs.

Cada miúdo tem a sua história, faz o seu retrato gritado, exprime o espírito da sua rua, marca o seu território. “Somos mais calmos, por isso chamam-nos Suave”, dizem dois irmãos. Gravar é tão importante para o crescimento destes miúdos como é ter uma namorada ou fumar um primeiro cigarro. Se não gravas, não és ninguém. Tal como qualquer adulto, que se afirma pelo que é capaz de fazer. O resultado destas Buda Sessions é uma música a que se chama Kuduro, cujo best off é compilado num CD e vendido nos mercados. Semanalmente. Eles querem ouvir-se. E dançam. As festas que o Dj Buda organiza são um sucesso: há comes e bebes e muita dança pela noite fora. Noutros musseques, talvez o mesmo CD anime outras festas. É a força do aqui e agora, de estar vivo, de resistir (...)"
(texto daqui)

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

little giantess

antes tinha falado dela e confesso que vou continuar a seguir-lhe o rasto. desta vez encontrei-a por aqui, celebrando a festa dos 20 anos da queda do muro. sempre um encanto!








Royal de Luxe - LE RENDEZ-VOUS DE BERLIN, DAS WIEDERSEHEN VON BERLIN

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

through glass


Posted by Picasa

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

dear max, dear mary








nestes dias, em que parecemos ter desistido de escrever cartas e os correios só nos servem para levantar encomendas, este é um filme de animação sobre a amizade por correspondência entre Mary, uma garota de Melbourne com 8 anos e Max, um solitário novaiorquino com síndroma de asperger.

para entrar nesta história, a porta é por
aqui e por aqui

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

antropologias






visual poem
(clicar em qualquer uma das imagens)

domingo, 11 de Outubro de 2009

o lustro do dia






foi o encontro com este rosto. (aqui)