sábado, 18 de julho de 2009

o filtro


Escritor Philip Pullman rejeita submeter-se a controlo



"O escritor britânico Philip Pullman, o conhecido autor da trilogia «Mundos Paralelos», não poderá continuar a ler os seus textos nas escolas do Reino Unido por recusar submeter-se a um controlo para um banco de dados de presumíveis pedófilos.

A exigência governamental de submeter a um controlo deste tipo toda e qualquer pessoa que mantenha contactos com escolas dá a entender aos jovens que «o mundo é um lugar sinistro e repugnante, onde toda a gente pretende assassiná-los e violá-los», afirmou o escritor, citado hoje pelo jornal The Daily Telegraph.

O controlo será efectuado pela chamada Independent Safeguarding Authority (ISA), criada pelo ministério do Interior britânico na sequência do assassínio de dois estudantes de 10 anos, em 2002, por um funcionário do colégio que frequentavam.

A partir de Novembro de 2010, os 11,3 milhões de pessoas que trabalham com crianças e adultos vulneráveis, incluindo professores e voluntários, terão de passar por aquele «filtro».

Na opinião de Pullman, o governo trabalhista «foi demasiado longe» ao exigir o registo de voluntários, que têm apenas um contacto fugaz com as crianças.

Pullman, cujo livro «Os Reinos do Norte» foi transposto para o cinema com o título «A Bússola dourada», qualificou a medida de «insultuosa» e «desnecessária».

«Recuso-me a ser cúmplice de qualquer sistema que dê por suposta a minha culpabilidade», disse Pullman, que já foi professor.

O escritor considera que bases de dados como esta apenas podem «corromper a visão que as crianças têm do mundo» e dar-lhes a entender que devem adoptar uma «atitude, não de confiança, mas de desconfiança».

Segundo um porta-voz do ministério do Interior, não se pretende penalizar ninguém, mas qualquer pessoa que tenha «contactos mais do que esporádicos com crianças» ou adultos vulneráveis terá de passar por aquele «filtro», com o qual se visa apenas proteger a infância."

Diário Digital / Lusa

(via)


segunda-feira, 13 de julho de 2009

wonderland

enquanto se espera a Alice de Tim Burton, tempo para uma outra, a do cineasta checo Jan Svankmajer.



sexta-feira, 10 de julho de 2009

entre as oliveiras

é só até amanhã à noite, mas é capaz de valer a pena passar por lá para ver como é. depois, é sonhar com um relvado assim: bem junto ao coração.


segunda-feira, 6 de julho de 2009

a life. alive.




As imagens transbordam


As imagens transbordam fugitivas

E estamos nus em frente às coisas vivas.

Que presença jamais pode cumprir

O impulso que há em nós, interminável,

De tudo ser e em cada flor florir?


Sophia de Mello Breyner Andresen

Obra Poética I

Caminho

(img. de Violeta Lópiz)

domingo, 28 de junho de 2009

tempo grande

ontem, perdi as noites brancas mas encontrei o Verão aqui. trouxe-o para casa. cheira a guardado. assim, como todos os tesouros que nos lembram o tempo gordo da infância e que persistimos em querer encontrar, todos os anos, quando o tempo aquece e fica grande.


O Verão
é uma árvore
carrregadinha de pêssegos.
(...)
É o tempo
em que o sol queima
e apetece estar deitado
à sombra das árvores
a ouvir conversas
de passarinhos.
(...)
O Verão
é o tempo das festas
na aldeia.
(...)
O Verão
é o tempo das zínias
e das sécias.
(...)

Maria Isabel César Araújo
ilustrações de Maria Keil

segunda-feira, 22 de junho de 2009

próximo futuro

em Lisboa, nas próximas semanas, acrescentam-se motivos para passear por aqui: a sombra está enfeitada com versos, há filmes para ver ou rever enquanto as rãs mergulham por perto e a música poderá ser inesperada. é o futuro já aqui.





"A Casa", instalação do brasileiro José Bechara
Próximo Futuro é um programa Gulbenkian de Cultura Contemporânea dedicado em particular, mas não exclusivamente, à investigação e criação na Europa, na América Latina e Caraíbas e em África. O seu calendário de realização é do Verão de 2009 ao fim de 2011.

"(...) O Mundo está diferente e isso implica uma responsabilidade maior para os que nele têm capacidade de intervenção. Há uma personagem de “À Espera dos Bárbaros”, de J.M. Coetze, que diz «Há qualquer coisa a meter-se-me pelos olhos dentro e ainda não consegui ver o que é». Mesmo assim, ou por isso mesmo, é fundamental estar disponível para o que vem, na sua estranheza e na sua imprevisibilidade, e as crises são momentos cruciais para a intervenção que modifica, altera, recoloca as questões centrais. Foi graças a este espírito que os estudos pós-coloniais – hoje já alojados nas universidades e já sem a carga de algum panfletarismo que, necessariamente, tiveram no seu início - que nós europeus nos redescobrimos, na construção de outras narrativas mais justas sobre a história e, sobretudo, na possibilidade que nos é agora dada de beneficiar da memória e da conciliação. E aqui a importância das novas narrativas – que no caso dos países da América Latina e Caraíbas já começaram há mais tempo e que, no caso de África e em alguns países de Oriente, são mais recentes – é fulcral para agir no futuro próximo. De uma forma geral, e mesmo em situações conturbadas, estas novas narrativas surgidas das independências transportam com elas uma energia e uma vitalidade raras. São elaboradas por populações e criadores de países à procura de construírem novas identidades e, com elas, novas formas de representarem e viverem o mundo. Não são países perfeitos, nem paradisíacos. Em muitos deles há guerra, corrupção, racismo e xenofobia, mesmo entre africanos, ou ressentimentos, entre povos latino-americanos. Mas, que sabemos nós das suas realidades e das suas razões para os julgarmos tão apressadamente, como é regra geral? Sabemos pouco e é fulcral sabermos muito mais(...)"

António Pinto Ribeiro

(o texto completo pode ser lido aqui . calendário aqui . imagens copiadas do blog)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

quarta-feira, 17 de junho de 2009

ايران

possibilidade poética num país a ferro e fogo :












fotografias de Abbas Kiarostami

'the tree is the sister of man'(Muhyiddin Ibn 'Arabi)

domingo, 14 de junho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

sem tempo para aprender



" Today, I count myself blessed, having become a photographer. To be able to articulate the experiences of the voiceless, to bring their identity to the forefront, gives meaning and purpose to my own life " G.M.B.Akash















Dhaka. Bangladesh (ver aqui a série completa Born to Work )

no Zoriah, conheci o trabalho humanitário empenhado do admirável fotógrafo G.M.B.Akash, para quem, dar visibilidade ao trabalho infantil é a forma de pressionar o governo do seu país a devolver estas crianças à escola. vou continuar a acompanhar o seu olhar. por cá, o fenómeno arranjou disfarces e ensaia novas configurações. chamam-lhe "trabalho artístico"!

sem tempo para crescer



estas fotografias foram tiradas entre 1908 e 1910 por Lewis Hine (1874-1940), que dedicou grande parte da sua actividade de fotógrafo a documentar cenas de trabalho infantil nos EUA. Entre 1908 e 1912 Hine registou com a sua câmara aquilo que chamou rostos da juventude perdida: crianças de todas as idades a realizarem trabalhos de adultos. O fotógrafo conheceu-os todos. Conheceu as histórias de cada um. Posaram para ele, às vezes com o orgulho ingénuo de quem se julga gente grande, embora nos seus olhos estivesse toda a tristeza do mundo.
(fotos daqui)


























quinta-feira, 11 de junho de 2009

sem tempo para brincar

"O Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil comemora-se todos os anos a 12 de Junho, e tem como objectivo a conjugação de esforços do movimento global para eliminar o trabalho infantil. Destaca os perigos e os riscos que muitas crianças trabalhadoras enfrentam ainda muito jovens e as políticas necessárias para lutar contra o trabalho infantil." (mais informação aqui)






meninos e meninas sem infância. 50 histórias de vida de crianças trabalhadoras na cidade de Monterrey no México, recolhidas pela socióloga Sandra Arenal e ilustradas por Mariana Chiesa. um livro-documento-denúncia que nos empurra para a acção. na escola. porque a educação é a resposta certa ao trabalho infantil.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

língua enfeitada



Perguntas à Língua Portuguesa

Mia Couto

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?

No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?

• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

(texto escrito em 1997)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

auto-defesa


capa de um livro dos anos 5o:
Let's go to vote
de Agnes McCarthy
ilustrado por Ruth Van Sciver (via minor details)

vou votar. um voto técnico. sem euforia. sem brilho. pura auto-defesa.
quero lá saber! vou votar e pronto!