sábado, 21 de junho de 2014

I love you with the window open




My dear little girl

For a long time I’ve been wanting to write to you in the evening after one of those outings with friends that I will soon be describing in “A Defeat,” the kind when the world is ours. I wanted to bring you my conqueror’s joy and lay it at your feet, as they did in the Age of the Sun King. And then, tired out by all the shouting, I always simply went to bed. Today I’m doing it to feel the pleasure you don’t yet know, of turning abruptly from friendship to love, from strength to tenderness. Tonight I love you in a way that you have not known in me: I am neither worn down by travels nor wrapped up in the desire for your presence. I am mastering my love for you and turning it inwards as a constituent element of myself. This happens much more often than I admit to you, but seldom when I’m writing to you. Try to understand me: I love you while paying attention to external things. At Toulouse I simply loved you. Tonight I love you on a spring evening. I love you with the window open. You are mine, and things are mine, and my love alters the things around me and the things around me alter my love.

My dear little girl, as I’ve told you, what you’re lacking is friendship. But now is the time for more practical advice. Couldn’t you find a woman friend? How can Toulouse fail to contain one intelligent young woman worthy of you*? But you wouldn’t have to love her. Alas, you’re always ready to give your love, it’s the easiest thing to get from you. I’m not talking about your love for me, which is well beyond that, but you are lavish with little secondary loves, like that night in Thiviers when you loved that peasant walking downhill in the dark, whistling away, who turned out to be me. Get to know the feeling, free of tenderness, that comes from being two. It’s hard, because all friendship, even between two red-blooded men, has its moments of love. I have only to console my grieving friend to love him; it’s a feeling easily weakened and distorted. But you’re capable of it, and you must experience it. And so, despite your fleeting misanthropy, have you imagined what a lovely adventure it would be to search Toulouse for a woman who would be worthy of you and whom you wouldn’t be in love with? Don’t bother with the physical side or the social situation. And search honestly. And if you find nothing, turn Henri Pons, whom you scarcely love anymore, into a friend.

[…]

I love you with all my heart and soul.


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sexta-feira, 23 de maio de 2014

a vida e assim






EL SÍMBOLO DE TODA NUESTRA VIDA

Hay noches que debieran ser la vida.
Intensas largas noches irreales
con el sabor amargo de lo efímero
y el sabor venenoso del pecado
- como si fuésemos más jovenes
y aún nos fuese dado malgastar
virtud, dinero y tiempo impunemente.

Debieran ser la vida,
el símbolo de toda nuestra vida,
la memoria dorada de la juventud.
Y, como el despertar repentino de una vieja pasión,
que volviesen de nuevo aquella noches
para herirnos de envídia
de todo cuanto fuimos y vivimos
y aún a veces nos tienta
con su procacidad.
Porque debieron ser la vida.

Y lo fueron tal vez, ya que el recuerdo
las salva y les concede el privilegio de fundirse
en una sola noche triunfal,
inovidable, en la que el mundo
pareciera haber puesto
sus llamativas galas tentadoras
a los pies de nuestra altiva adolescencia.

Larga noche gentil, noche de nieve,
que la memoria te conserve como una gema cálida,
con brillo de bengalas de verbena,
en el cielo apagado en que flotan
los ángeles muertos, los deseos adolescentes.

Felipe Benítez Reyes
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segunda-feira, 19 de maio de 2014

da literatura









E TUDO O RESTO É LITERATURA


A palavra mais forte, mais verdadeira, que toca no seu próprio fim, na sua matéria mais densa e profunda, pode não ser a palavra dita “literária” (muito embora, paradoxalmente, consiga fazer-nos acreditar na existência da literatura), não ter a assinatura de um escritor, nem realizar o esforço de se apresentar sob a forma de poema, de romance, de texto em prosa, de livro. Aliás, os livros, cujo regime de apresentação na cena da literatura é, em geral, o da idade do narcisismo, da regressão a uma infantilidade que leva as pessoas a quererem “exprimir-se” e a introduzir o odioso “eu” por todas as frestas e em todos os salões de festa a que acedem (a estupidez, diz algures Deleuze, nunca é muda nem cega), raramente têm um lugar diferencial, uma função de negatividade, no meio do ruído. Palavras fortes, capazes de nos fazer perceber que fomos expropriados sem remorso e estamos imersos na pobreza das palavras que escondem a nossa jornada, são as que podemos ouvir em Vidros Partidos, o filme com que Víctor Erice respondeu a uma encomenda de “Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura”. Nesse filme/documentário, ouvimos o testemunho de homens e mulheres que trabalharam numa fábrica de tecidos do Rio Vizela, na região do Vale do Ave, fundada em 1845 e encerrada em 2002. Eles contam a sua experiência na fábrica e comentam uma foto antiga, que parece ter sido feita numa ocasião festiva, onde aparecem, reunidos, ao longo de mesas de cantina, os operários de então. A foto é inquietante, pelo modo como todos aqueles homens e mulheres, sujeitos de uma história que chegou há muito ao seu fim e que nós já só conhecemos da historiografia, olham para nós e nos interpelam. Víctor Erice pôs alguns ex-trabalhadores da fábrica encerrada a recitar, de cor, diante da câmara, o texto com que prestaram o seu testemunho. Isto é: a versão inicial do texto foi arranjada, montada, cortada (mas não reescrita com outras palavras), e depois dita pelos seus autores, que passaram assim a ser também actores da sua própria história. Uma mulher, velha e debilitada, aproveita a ocasião para ler um poema que leva consigo, de uma prima que “escrevia muito bem, desde muito nova”. E esse poema, que não interrompe nada e apenas prolonga o fluxo das palavras daquela mulher como um fluxo poético (como aliás, o de todos os outros ex-trabalhadores da fábrica que testemunham no filme de Erice), soa-nos como algo capaz de dar a ver a vacuidade da literatura e os seus abjectos artifícios – aquela que chega até nós mediada pelos protocolos canónicos da instituição literária. Tal poema é um antídoto contra a saturação intrínseca à indústria literária, essa coisa ignóbil que dissimula a nossa própria morte. O que as palavras daquela mulher nos fazem perceber (assim como a de todos os outros trabalhadores que comparecem no filme, sem poemas para ler, mas com palavras próprias para dizer), muito especialmente quando recita o poema da sua prima, é que nós chegámos demasiado tarde à literatura, quando ela já chegou ao seu fim. Nós, leitores, vós, escritores, jamais conseguiremos atingir, perante a palavra literária, aquele estado de encantamento, que não se confunde com nenhuma espécie de ingenuidade. Para aquela trabalhadora, a tragédia da história redime-se através de um poema que nunca tinha encontrado o seu público; para nós, tudo o resto é literatura. Aquele poema resplandece sem assinatura; nós, só raramente conhecemos um escritor que não seja ao mesmo tempo jornalista, escritor-jornalista com uma missão de reportagem de si próprio e da sua obra.

- António Guerreiro
in Ípsilon (16.05.2014)


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quinta-feira, 1 de maio de 2014

voo partilhado






"Maio, 1
Dia dos Trabalhadores

Tecnologia do voo partilhado: o primeiro pato que levanta voa abre caminho ao segundo, que limpa o caminho ao terceiro, e a energia do terceiro alça o quarto, que ajuda o quinto, e o impulso do quinto empurra o sexto, que empresta vento ao sétimo…
Quando se cansa, o pato que vai na frente passa para a cauda do bando e deixa o seu lugar a outro, que sobe ao vértice desse V que os patos desenham no ar. Todos vão mudando de lugar, atrás e à frente; e nenhum se considera superpato por voar à frente, nem subpato por marchar atrás."

Eduardo Galeano, Los Hijos de los Días, Madrid, Siglo XXI Editores
(tradução da P. Godinho,
img: Paul Strand, The Scythes, Luzzara, Italy, 1953)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

acorda, filha! não podes ir à escola porque houve uma revolução…

















"As efemérides têm, pelo menos, o mérito de estimular a memória. Que ela nunca se perca quando se trata do 25 de Abril. O Pato Lógico associa-se à comemoração dos 40 anos da Revolução dos Cravos com a publicação, em parceria com a IN-CM, do livro "Salgueiro Maia. O Homem do Tanque da Liberdade".
O texto de José Jorge Letria e as ilustrações de António Jorge Gonçalves recordam-nos o homem que se tornou símbolo desta data, que há 40 anos trouxe a tão esperada queda de um regime opressivo. Que nunca se esqueça Salgueiro Maia e aqueles que lutaram para tornar possível a liberdade que temos hoje!"



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quarta-feira, 23 de abril de 2014

ode aos livros que não posso comprar







Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.
É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.
Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
- sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.
Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.
Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

Jorge de Sena
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quarta-feira, 12 de março de 2014

sábado, 15 de fevereiro de 2014

on falling in love








New York
November 10, 1958

Dear Thom:

We had your letter this morning. I will answer it from my point of view and of course Elaine will from hers.
First — if you are in love — that’s a good thing — that’s about the best thing that can happen to anyone. Don’t let anyone make it small or light to you.
Second — There are several kinds of love. One is a selfish, mean, grasping, egotistical thing which uses love for self-importance. This is the ugly and crippling kind. The other is an outpouring of everything good in you — of kindness and consideration and respect — not only the social respect of manners but the greater respect which is recognition of another person as unique and valuable. The first kind can make you sick and small and weak but the second can release in you strength, and courage and goodness and even wisdom you didn’t know you had.
You say this is not puppy love. If you feel so deeply — of course it isn’t puppy love.
But I don’t think you were asking me what you feel. You know better than anyone. What you wanted me to help you with is what to do about it — and that I can tell you.
Glory in it for one thing and be very glad and grateful for it.
The object of love is the best and most beautiful. Try to live up to it.
If you love someone — there is no possible harm in saying so — only you must remember that some people are very shy and sometimes the saying must take that shyness into consideration.
Girls have a way of knowing or feeling what you feel, but they usually like to hear it also.
It sometimes happens that what you feel is not returned for one reason or another — but that does not make your feeling less valuable and good.
Lastly, I know your feeling because I have it and I’m glad you have it.
We will be glad to meet Susan. She will be very welcome. But Elaine will make all such arrangements because that is her province and she will be very glad to. She knows about love too and maybe she can give you more help than I can.
And don’t worry about losing. If it is right, it happens — The main thing is not to hurry. Nothing good gets away.

Love,
Fa


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

alma encontrada





in Dicionário dos Lugares Imaginários, Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, tinta-da-china, 2013

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

oneself
















What would you like to tell people?
 I don’t know… I think I’d like to say only that they should learn to be alone and try to spend as much time as possible by themselves. I think one of the faults of young people today is that they try to come together around events that are noisy, almost aggressive at times. This desire to be together in order to not feel alone is an unfortunate symptom, in my opinion. Every person needs to learn from childhood how to be spend time with oneself. That doesn’t mean he should be lonely, but that he shouldn’t grow bored with himself because people who grow bored in their own company seem to me in danger, from a self-esteem point of view. 

img. Instant Light: Tarkovsky Polaroids from Thames and Hudson

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

parabéns, Pina!



" (...) tu que com sono a glabra ilha lavras
e com o sonho avidamente a usas
na dura arquitectura das palavras
tu que tudo te dura das palavras."



 Poemas com cinema [de Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo calma é apenas um pouco tarde], org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

domingo, 10 de novembro de 2013

sem rede







Diz-me se incomodo,
disse ao entrar,
porque me vou imediatamente.

Não apenas incomodas,
respondi,
como pões de pés para o ar toda a minha existência.
Bem-vindo.

Eeva Kilpi


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

vermelho







Não sei de músicas que acalmem os pássaros, nem sei de pássaros que amanheçam no sangue ou de beijos dados no pulso para chegarem ao coração. Não sei de nada que tenha voo, cor de tempo – vermelho, sempre vermelho, como odeio vermelho –, ou de como se nasce das pedras. Muito embora tenha caminhado sobre elas, pressinta cores dentro do peito e goste de olhar muito acima da copa das árvores só pela ideia de que, ao contrário dos pássaros, as estrelas me durarão o futuro todo. E se me falam de músicas, sangue ou beijos, sorrio e fecho o rosto, porque nunca gostei do que não me durasse mais do que este instante.

Beatriz Hierro Lopez
É quase noite, Averno, Lisboa, 2013.

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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

mudança de estação





para te manteres vivo - todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio - uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento
passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória
luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda dos noctilucos
estendida nesta mudança de estação

Al Berto

(img. ann hamilton)

domingo, 29 de setembro de 2013

domingologia






 













Porque é que as segundas têm de
estrangular os domingos;
e o outono, o verão;
e o tempo adulto, o tempo mais jovem?
Sob os jardins,
morreram outros jardins.
Atrás do sol,
outros sóis sucumbem,

como roupas velhas num armário.
Ele já não faz perguntas:
apaixonou-se por uma música.


Alain Bosquet
[Trad. Inês Dias]

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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

fall









Gerard Manley Hopkins
traduzido por Ricardo Marques
in PIOLHO #11, Edições Mortas/Black Sun Editores, Agosto 2013



domingo, 15 de setembro de 2013

uma vida maior





quando a noite toca os teus pulsos
rebentam em ternura as açucenas
e o mais das flores se inclina
para o peito, o ventre, o calor
desta vida que brilha ao sul.


dá-me a tua mão, dizes,
quero ter contigo o relâmpago
que incendeia na terra os cereais
e no coração desperta as romãs.


procuro árvores, pé após pé.
na sombra da tua palavra
busco o derradeiro acordar das estrelas
e demoro-me em silêncio
na interrogação dos planetas.


e quando a noite toca os teus pulsos
dá-me em mim uma vida maior
e das janelas apago os olhares
para ficar a sós contigo
no suspiro da terra que nos inventa.


- Vasco Gato
 Um mover de mão

(parabéns, cn)