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terça-feira, 20 de novembro de 2012

real e efémero







imgs. daqui




Matéria de Estrelas

 Porque é tudo para sempre, mesmo a efémera morte, 
encontrar-nos-emos eternamente
 e nunca mais nos veremos. 
O impossível volta a ser impossível. Para sempre. 

Impossível é cada manhã aberta, 
um deus sonha consigo através de nós. 
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus, 

surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero. 

 Matéria, alma do nada, os mortos ouvem a tua música sólida 
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas. 
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música. 


 Manuel António Pina
in «Todas as Palavras — Poesia Reunida». 



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

calem a notícia



Café Orfeu

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém(eu provavelmente)
nunca tivesse existido.

 

Manuel António Pina


domingo, 8 de novembro de 2009

impossibilidades


Coisas que não há que há

Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há,

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num sítio onde só eu ia...

Manuel António Pina

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

gigões e anantes



Gigões e anantes

Gigões são anantes muito grandes.
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes porque
uns são um bocado mais outros são um bocado menos.

Era uma vez um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. – Em quê? – O gigão era tão grande
que nem se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão,
e esse nem se sabia se ele cabia ou não.

Só havia uma maneira de os distinguir:
era chegar ao pé deles e perguntar.
Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar!
E nunca se sabia se estavam a mentir!

Então a Ana como não podia
resolver o problema arranjou uma teoria:
xixanava com eles e o que ficava
xubiante ou ximbimpante era o gigão,
e o anante fingia que não.

A teoria nunca falhava porque era toda
com palavras que só a Ana sabia.
E como eram palavras de toda a confiança
só queriam dizer o que a Ana queria.

MANUEL ANTÓNIO PINA
O Têpluquê e outras histórias