sexta-feira, 10 de agosto de 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

evitemos os gestos bruscos



Paciência

Faz-se o amor como se fosse um castelo
de cartas. Copas, paus, ouros, espadas. Um equilíbrio
difícil. Negros sobre vermelhos, damas e valetes
no meio de reis e ases. Ponho uma carta
sobre a carta que tu puseste; e tu acrescentas
a essa ainda outra. Até onde? Nesse jogo, não
convém respirar com muita força; evitemos
os gestos bruscos, os que deitam tudo abaixo,
de súbito; e espreitemos o olhar de cada um de nós,
quando nos preparamos para fazer subir o castelo.

Assim, ponho a minha emoção sobre o sentimento
que me confessas. Não precisas de mo dizer;
basta que eu saiba que os teus dedos brincam
entre corações e manilhas; que a tua voz treme
quando o edifício se parece com um labirinto;
e que ambos descobrimos uma saída, para um lado ou outro
da toalha. Na mesa, com efeito, podem já
nascer as flores, cantar as aves que brotam
de uma ilusão de primavera, ou morrerem frases
e borboletas que esvoaçam numa corrente de ar.

Por que abriste a janela? Agora que tudo caiu,
sem que um nem o outro tivéssemos feito alguma coisa
para isso, de quem é a culpa? Então,
aproveitemos este silêncio breve, enquanto a tarde
não chega, e recomecemos o jogo.



Nuno Júdice, A Fonte da Vida

img. daqui

sexta-feira, 20 de julho de 2012

uma fogueira pequenina









Não sei se sabes
que a meio da manhã
o verde dos teus lábios
passou para as encostas
e um gomo transparente
adormeceu nos juncos e abriu.
Abriu um brilho qualquer
na gruta fria e pôs uma fogueira
pequenina numa taça
e elevou as mãos quentes
pelo dia.
talvez tu saibas que o principal
do amor
é uma montanha de efeitos secundários.

Rui Costa






 img.

sábado, 7 de julho de 2012

oração

 

 
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha...
 
Herberto Helder  
 
 

terça-feira, 19 de junho de 2012

as rugas da cidade

Meus olhos têm melancolias,
minha boca tem rugas.
Velha cidade! (...)

Carlos Drummond de Andrade


 















 JR e José Parlá - Los Surcos de la Ciudad: La Habana, Cuba.
via
 

domingo, 17 de junho de 2012

nunca ressuscitará, visto que nada ressuscita




De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.



 





A Terceira Miséria
Hélia Correia
Relógio d’Água

sábado, 16 de junho de 2012

a memória, num museu longe daqui

 The Agony of Waiting


 Don't Lean Back That Way, You Might Fall


My Father's Death


Tombala
















a entrada no Museu da Inocência do mestre Pamuk é  por aqui

quinta-feira, 14 de junho de 2012

prá próxima não te dou nada

sou daquelas que acham que os livros pertencem à categoria dos seres vivos, que respiram como os pássaros e as orcas e que têm alma como as gentes e os gatos. é por isso que me parece que já é tempo de se criar uma qualquer liga de defesa dos direitos dos livros, à semelhança do que se faz com outros seres frágeis deste mundo, respirações à beira da extinção, protegendo-os do abandono dos homens. este vídeo bem podia ser o arranque promocional de uma campanha.







(claro que teríamos que arranjar mais uns vestidos à miúda!)

terça-feira, 12 de junho de 2012

marcha





Se eu 
soubesse dançar
convidava-te para um tango,
guiava-te nos labirintos do coração.
Voarias sobre os campos
como num deslumbramento
seríamos uma ameaça
à estabilidade nacional ...

Henrique Manuel Bento Fialho,  A dança das feridas

(img. Katrin Zeidler)

domingo, 10 de junho de 2012

mid air



como na casa do lado ainda só entram meninas e esta é a canção mais bonita que ouvi nos últimos tempos, deixo-a cair do bolso aqui.




...life goes by
and you learn
how to watch
your brigdes burn...




Paul Buchanan, Mid Air, 2012



quinta-feira, 7 de junho de 2012

morreu o homem ilustrado









Ray Bradbury (1921-2012)


img. Ray Bradbury's Fahrenheit 451
The Authorized Adaptation, Tim Hamilton



terça-feira, 5 de junho de 2012

o sol não pode viver perto da lua





(a flor e o espinho de Nelson Cavaquinho - os Soaked Lamb e a animação de uma infelicidade)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

aguardo uma outra estação



primavera primeira


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
- no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum

Vasco Gato, Um Mover de Mão, Assírio & Alvim

img. María Wernicke

sábado, 19 de maio de 2012

toque e foge

confesso que andado zangada com o Sérgio Godinho depois de o ver metido nesta palhaçada, mas o vídeo que a Rita Sá fez para a Bomba-Relógio é bem bom e merece que eu me distraia por um pouco do autor da canção, para o mostrar o trabalho dela aqui:



sábado, 12 de maio de 2012

acima dos pássaros






hei-de sempre recordar uma noite de verão na tenda de Braço de Prata, num dos momentos mais bonitos em que me lembro de o ouvir tocar, no encerramento de um encontro organizado pelo Miguel Portas.
onda negra, a destas últimas semanas!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

lustro do dia: as coisas





as coisas. não poderia imaginar melhor maneira de me conciliar hoje com o mundo.
a chuva já não mora aqui.

domingo, 22 de abril de 2012

a terra toda



Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
Alberto Caeiro
img. Andrei Tarkovsky 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

(des)orientação


Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros

Daniel Faria
Explicação das árvores e outros animais
1998

domingo, 15 de abril de 2012

domingos assim

 


Chove…
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu? 

Chove…
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira
img. Klaas Verplancke